| Com tanta riqueza de detalhes em torno do que teria pautado a investigação policial sobre a morte a pauladas do casal Manfred e Marísia Richthofen, premeditada pela filha, o livro ?Richthofen ? O Assassinato dos pais de Suzane?, recém-lançado pela Editora Planeta, passaria facilmente como um relato verídico de um dos crimes que mais chocaram o país neste milênio.
É o próprio autor, Roger Franchini, que clareia o que a publicação faz questão de colocar em suspense: ?(Os investigadores) Fazem parte exclusivamente do meu arquivo de memória, uma compilação dos vários investigadores que eu conheci em minha carreira policial. (O protagonista) Eduardo só existiu na minha cabeça?, avisa logo no início da entrevista ao Hoje em Dia.
A esta farsa que herda elementos da literatura policial, Franchini foi absolutamente fiel no que diz respeito à descrição do assassinato, executado pelo namorado de Suzane, Daniel, e pelo irmão dele, Christian, e o que ocorreu com o trio nos nove dias que antecederam à prisão. O resultado é uma mistura muito bem azeitada em que o leitor dificilmente saberá até onde vai a verdade.
?Eu me centrei nos autos, em seus mais de 20 volumes, com a preocupação de não criar uma conduta que não pudesse ser aceita, já que envolve pessoas verídicas. Se falo no livro que o casal usava drogas é porque o processo também relata isso, através do depoimento dos personagens e de testemunhas?, salienta o escritor, que se valeu da ficção para levantar algumas perguntas.
Franchini destaca que vários pontos não foram devidamente esclarecidos, como o envolvimento de Manfred Richthofen com o caixa dois do então governador de São Paulo, Mário Covas, ou mesmo a participação do irmão de Suzane, Andreas, no crime.
?Parto do princípio que o processo judicial já é uma interpretação dos fatos, costurando uma história própria que não significa ser, necessariamente, a história verídica?.
Para preencher esses buracos investigativos que não vieram à tona pela imprensa (?se não aconteceram, tiveram chances reais de terem ocorrido?, avisa), o autor se apropria da literatura de ficção, enveredando pelo universo da polícia que conhece tão bem. Afinal, trabalhou por seis anos como investigador na Polícia Civil de São Paulo, conhecendo de perto o que a instituição tem de melhor e pior.
É deste material que é feito Eduardo, policial das antigas que prefere fazer plantão em distritos mais tranquilos, ganhando mais dinheiro que seus chefes como dono de uma empresa de radiotáxi e de serviço de entrega por motoboys. Apesar de corrupto, carrega uma ética própria que o diferencia dos demais, transformando-o num anti-herói cheio de camadas sedutoras.
?Eduardo nasceu basicamente das minhas lembranças na Polícia Civil de São Paulo, que não é muito diferentes das outras no Brasil. Lá se tem uma noção própria do que é bom ou ruim. Fazem coisas erradas, mas com uma tolerância velada da sociedade: está tudo bem enquanto deixarem as ruas limpas, mesmo tomando dinheiro de ladrão. Civil faz parte de um universo diferente do PM. O primeiro é mais cínico do que é hipócrita?, registra.
Franchini salienta que, antes de ser polícia de Estado, a instituição está vinculada ao governo. ?Não há uma investigação sequer que não tenha um objetivo político. Se você não atua em conformidade com o chefe do executivo, perde o emprego. O interesse político é mais do que forte do que o jurídico, o que faz da vítima, o povo, no grande odiado dentro da investigação?, analisa.
Vários dos episódios relatados no livro foram presenciados por Franchini. Rodrigo, parceiro novato de Eduardo, trabalha no distrito sem portar uma arma, algo que aconteceu com o próprio autor. ?Entrei para a polícia desarmado, fazendo patrulhamento, escolta de preso e estourando boca de fumo sem um revólver. Outras coisas afirmo entre amigos, mas se me perguntarem, garanto que não sei de nada?, diverte-se.
Conhecer estes conflitos ajuda a entender o porquê de Franchini recorrer à ficção para construir o relato policial. ?Com a Constituição de 1988, os policiais antigos ficaram de mãos amarradas, sem poder atuar de forma agressiva. Assim criou-se uma polícia sem personalidade, que não sabe ainda o seu lugar, perdendo espaço para o Ministério Público?.
Para o autor, ?os policiais vivem hoje um grande conflito existencial?.
Com este retrato nada lisonjeiro do meio policial, Franchini afirma que seria um ?exagero de hipocrisia tratar a Suzane como a única vilã desumana da história?.
Ele pondera que os motivos que a levaram a praticar aquela brutalidade ainda não estão bem explicados, deixando que o leitor a julgue com seus próprios parâmetros de moralidade.
Os pais de Suzane são mostrados como fomentadores de discórdia e ódio, com Manfred chegando a dizer para Andreas que ?nunca hesite em magoar alguém para você ficar feliz?, só tendo o cuidado de avaliar o prejuízo patrimonial. Franchini discorda, no entanto, que pesou no episódio a má formação de Suzane. ?Sua família tinha todos os infernos e os paraísos de qualquer lar brasileiro, com as mesmas invejas, paixões, repressões e frustrações pessoais?.
Para criar este retrato ambivalente o autor contou com a preciosa colaboração de Marçal Aquino, escritor de vários livros (?O Invasor? e ?Eu Receberia as Piores Notícias do seus Lindos Lábios?) adaptados para o cinema pelo diretor Beto Brant. ?Desde que comecei a escrever é ele quem me aponta os rumos na literatura. É um dos grandes narradores da literatura brasileira?.
Franchini revela que ?Richthofen? também passará para a tela grande, com o trabalho de roteirização iniciando no primeiro semestre de 2012. Ele fará parte da equipe de roteiristas, dividindo esta tarefa com a confecção de um novo livro.
O tema ainda não foi escolhido, mas crimes extraídos da realidade não faltam, citando o assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, e o sequestro da filha do apresentador Silvio Santos. |